Editorial
CARTA ABERTA AO MINISTRO DO EXÉRCITO
Caro General Leonidas Pires Gonçalves:
"Ano Novo, vida nova!". Esta curta (e verdadeira) frase poderia ser a síntese deste nosso Editorial, mas ela é simples e vaga demais para representar os anseios de toda a comunidade honesta envolvida com Armas neste nosso grande Brasil.
Como toda boa carta precisa de uma boa introdução, vamos a ela: com o recente aumento de nossa tiragem, e aplicando os índices de pesquisa usuais a este tipo de publicação, chegamos a um animador número provável de pessoas que têm contato direto e indireto com nossa Revista. São cerca de 200.000! Em nome desse grande público, do qual soubemos pelo pessoal da Federação Brasiliense de Tiro ao Alvo que V.Sa. faz parte, é que gostaríamos de dialogar consigo. Assim, vamos lá.
Em primeiro lugar, em nosso nome, e temos certeza no das aproximadamente 199.999 pessoas, gostaríamos de agradecer-lhe a liberação do calibre .45 ACP para o Esporte do Tiro Prático (Combate e Defesa). Tão corajosa, necessária e sábia atitude irá, certamente, ser honrada por nossos atiradores em competições no exterior, projetando ainda mais o nome do Brasil no panorama esportivo mundial (daqui pra frente, o negócio é com Vocês, moçada do Prático. Honrem a concessão!).
Mais um cumprimento: em recentes episódios policialescos no Rio de Janeiro, com tentativas de apreensão de coleções de armas devidamente registradas junto ao Ministério do Exército, seu comandado do Serviço de Fiscalização de Produtos Controlados da 1ª Região Militar, Coronel Ubirajara da Silva Valença, portou-se de muito digna forma, ao enviar esclarecedor ofício à Secretaria de Polícia Civil daquele Estado, conforme é mencionado no Editorial do Boletim nº 10 da ABCA Associação Brasileira dos Colecionadores de Armas.
Assim, conscientes da pessoa esclarecida e equilibrada que é V.Sa., sentimo-nos à vontade para respeitosamente solicitar-lhe reflexões em torno dos seguintes fatos, os quais presumimos sejam os anseios de mais algumas parcelas de nosso público que não os atiradores esportivos, sendo porém igualmente importantes:
Preservação da memória nacional, no tocante a armas e militaria em geral. Os colecionadores brasileiros sentem-se magoados quando sabem, através de anúncios em revistas norte-americanas, que empresas estrangeiras vendem armas leves brasileiras em seus mercados, sendo que nem lhes é dada a chance prévia de selecionarem para suas coleções aquilo que pertenceu ao passado de seu próprio país. Assim, enquanto nos outros países o colecionador é favorecido com armas militares de todo o mundo, o similar brasileiro é penitenciado, tendo que sujeitar-se a pagar preços inflacionados de armas usadas por seu próprio país e que muitas vezes por canais totalmente escusos retornam ao nosso mercado. Sabemos que os colecionadores brasileiros jamais poderão comprar as quantidades que as empresas estrangeiras adquirem, mas não seria preservar a memória nacional facultar-lhes o direito de primeiramente adquirirem, talvez por intermédio dos SFPCs ou das associações reconhecidas, os itens que mais lhes interessassem, quem sabe num sistema de leilões, obviamente abertos somente a eles? Com isso, acreditamos, se estaria minimizando os efeitos danosos do mercado paralelo de armas a pessoas não credenciadas e à própria nação e, certamente, incentivando-se o devido registro dos verdadeiros interessados junto ao órgão controlador.
Importação de armas históricas para colecionadores: como certamente é de seu conhecimento, algumas entidades esportivas do tiro conseguem importar para seus associados armas de competição. Por outro lado, como mencionamos no item anterior, em alguns países existem empresas que atendem especificamente colecionadores, importando armas leves de outras nações. Isto seria possível aqui, algum dia? Cremos que o advento de tais empresas, atuando em moldes sérios, promoveria também uma diminuição no mercado negro de armas no Brasil, ao mesmo tempo que facultaria ao colecionador brasileiro aprimorar-se em seu estudo das armas militares do passado.
O SINAE e os colecionadores e atiradores: pelo que percebemos, o quase instituído SINAE Sistema Nacional de Armas e Explosivos possui regras que praticamente extinguem o esporte do tiro, danificam e congelam as coleções, burocratizam e criminalizam todas as atividades de armaria. Embora saibamos que políticos de destaque, principalmente do Rio, tais como o Senador Irapuam Costa Jr. e o Dr. Roberto Jefferson, Deputado Federal, estejam se empenhando em modificar este estado de coisas, como fica a posição dos SFPCs, que sempre foram órgãos de defesa dos colecionadores e atiradores, reconhecidos como legítimos até pelas mesmas autoridades que estão tentando implantar o SINAE? Qual seria sua posição a esse respeito, digno ministro? Eles podem fazer isso?
Sabe, Sr. Ministro, magoa a nós pessoas sérias, responsáveis, que estão tentando arduamente mudar este panorama no Brasil e que apenas gostam de armas pelo que elas são, assim como outras pessoas gostam de cinzeiros, cachorros, cavalos, selos, flâmulas, etc., que alguns militares achem que "em nosso país tem que ser diferente", "ah, mas o nível do povo dos EUA ou da Europa é outro", "Deus me livre armar este povo, nunca". Até quando nossa gente levará a pecha de inculta, incapaz, despreparada e tarada no tocante às armas? Recentemente, ouvimos o que talvez tenha sido a mais idiota das posições idiotas: "O certo é acabar com o R-105, ele está obsoleto e não serve para nada!". Ora, o R-105 ainda é o último esteio dos sérios quanto a armas. Rogamos ao senhor que não permita que o SINAE o altere, a não ser comprovadamente para melhor.
Acreditamos que, a partir do fato de uma pessoa se registrar junto ao SFPC, ela assume um sério e consciente papel. Mas, somos obrigados a convir que é muito difícil ser sério e consciente quando se sabe de antemão que a única maneira de conseguir uma arma proibida dentro do conceito de poucos é recorrendo à ilegalidade, ao mercado negro. Pior do que isso, é saber-se que se está incentivando o contrabandista, o atravessador, aquele que lesa as autoridades, justamente porque elas fomentaram isto. Realmente, achamos que esta não é a posição dos decentes. Em nossa própria atividade, procuramos eliminar este câncer.
Há muitos anos, existe em nosso país um ciclo tremendamente vicioso que precisa ser rompido, no tocante às armas de coleção: grandes quantidades consideradas obsoletas têm sido destruídas, comercializadas no exterior ou por vias ilegais mesmo no mercado nacional. Em síntese, o capítulo "militaria" do patrimônio histórico e cultural do Brasil está defasado com isso.
A já inconsistente alegação de preservação da segurança e ordem públicas não pode a esta altura do processo ser usada como rótulo, seja por quem for. O próprio fato de existirem colecionadores devidamente credenciados junto ao Ministério do Exército é prova inconteste de que muitas armas foram retiradas da ilegalidade, as quais passam a ficar sob controle das autoridades quando passam a integrar coleções particulares.
Odiamos e repudiamos o sensacionalismo barato que a grande imprensa faz para com as armas em nosso país e apenas parafraseando o conhecido Chacrinha poderíamos reduzir esses falsos jornalistas ao que eles realmente são: aqueles que "vieram para confundir e não para esclarecer", como seria seu dever profissional.
Estes mesmos idiotas tomam, na maioria das vezes, partido de questões que não lhes são devidas, achando que tudo que se relacione a armas são prenúncios de violência, quando deveriam verificar que violento, ou uma forma de violentação, é seu próprio sensacionalismo para com alguns fatos.
Desculpe nossa impressa empolgação, mas tínhamos que repartir isto com quem julgamos nosso aliado: o senhor. E louvamos a Deus por sabermos que o senhor possui perfeito entendimento para o que expusemos.
A Revista Magnum sempre fará a mais absoluta questão de andar de mãos dadas com as Forças Armadas do Brasil porque entende que é no serviço do militar que está a garantia e soberania maiores de todos os cidadãos, inclusive daqueles que gostam de armas. E entende, ainda, que é dialogando democraticamente que se consegue o entendimento.
Ao tentarmos e julgamos ter conseguido sintetizar os anseios de uma parcela da comunidade brasileira, tentamos também entender como um governo de civis pôde cometer as descabidas arbitrariedades, felizmente ainda teóricas, contidas no SINAE, quando nos longos anos de governo militar isto não ocorreu. Não chegamos a nenhuma conclusão.
Sabemos que os problemas dessa parcela da comunidade não são, e nem poderiam ser, os mais importantes para o senhor, mas nos animaria muito e, acreditamos, aos leitores, saber sua posição quanto às questões levantadas. Afinal, o senhor possui a principal coisa em comum conosco: gosta de armas. E nós gostaríamos muito que 1987 fosse realmente um ano novo nessas questões. Nossas páginas estão à sua disposição, Sr. Ministro. Receba um realmente caloroso abraço de toda a nossa equipe.
OS EDITORES
Em tempo: ao encerrarmos esta edição da Magnum, soubemos que a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou, em 26 de novembro de 1986, as emendas propostas pela ACOLTI ao projeto do SINAE e iria levá-las a plenário em 4 de dezembro do ano passado, mas foram na última hora retiradas da pauta, ficando a votação dessas emendas talvez para este novo ano.
P.S.: Atenção pessoal de outros Estados. Vocês repararam como existem associações de defesa de colecionadores e atiradores no Rio? Não poderia ser assim em todo o Brasil?
Índice
Acesse esta edição
Assine e acesse esta e outras 206 edições. Ou compre apenas esta edição por 30 dias.








