Editorial
BRINCADEIRA DE CRIANÇA VIROU QUESTÃO DE SEGURANÇA NACIONAL
Ano de 1978. Ronco de motor, barulho de portão, o menino larga imediatamente o que está fazendo para receber o pai que chega de mais um dia de trabalho. Abre a porta e se depara com o sorriso do pai e, em suas mãos, um embrulho, uma longa caixa que parecia, para uma criança de oito anos, muito maior do que ela realmente era. Ávido, esfrangalha o papel de embrulho com a imagem da deusa da caça, logotipo da extinta loja de Caça e Pesca Diana Paolucci, que ficava no bairro do Brás, em São Paulo. Por detrás do papel, outro logotipo, gravado no papelão pardo da caixa, denunciava o conteúdo. Infelizmente, os anos borraram a certeza de qual era o fabricante, mas não tiveram poder para apagar a alegria daquele momento. O menino acabava de ganhar sua primeira “espingarda de chumbinho”.
Durante anos, nas ruas não pavimentadas da Praia Grande, aquela “espingarda” o acompanhou. Caixas de fósforos, latas de refrigerante, soldadinhos de plástico, batatas roubadas da cozinha da mãe eram alvos. Quase tudo era um alvo, com exceção de passarinhos e lâmpadas dos vizinhos, pois o pai avisara: se matar passarinho ou quebrar alguma coisa, perde a espingarda. Ele sabia que o castigo era justo e certo. Jamais correria o risco de ficar sem sua companheira de aventuras, verdadeiras e imaginárias.
Anos se passaram, outras tantas “espingardas de chumbinho” vieram e, infelizmente, se foram, não restando resquícios físicos, mas deixando marcas indeléveis de uma paixão que só cresceria.
Ano de 2010. Uma nova portaria emitida pelo Exército, eivada de burocracias e deveres, coloca em cheque a continuidade serena das antigas “espingardas de chumbinho”, que agora são tecnicamente designadas como armas de pressão. Sim, as “espingardas de chumbinho” são há muitos anos designadas como produtos controlados, de acordo com a definição dada pelo chamado R-105.
Produto controlado pelo Exército é aquele que, devido ao seu poder de destruição ou outra propriedade, deve ter seu uso restrito a pessoas físicas e jurídicas legalmente habilitadas, capacitadas técnica, moral e psicologicamente, de modo a garantir a segurança social e militar do país.
De brincadeira de criança, a velha “espingarda de chumbinho” foi promovida a algo que poderia colocar em risco a segurança social e militar do país. Triste fim. Não?
Em um país onde jovens todos os dias são jogados no mundo das drogas, do crime e do ódio, onde fuzis entram diariamente por nossas fronteiras e abastecem bandidos, onde helicópteros são derrubados por traficantes de drogas e organizações criminosas colocam de joelhos o próprio Estado, a transformação de um símbolo de infância em questão de segurança nacional revela um contraste difícil de ignorar.
Ah, o menino do começo do texto cresceu. E, mais de 30 anos depois, ele pôde ver a filha se tornar tricampeã de tiro com armas de pressão. Filha que, daqui alguns anos, terá a alegria de presentear o irmão mais novo, mantendo a tradição sobre o que fizeram o pai e o pai do pai, a entrega, a transmissão da primeira “espingarda de chumbinho”.
O menino do texto sou eu. E é tudo verdade. O menino cresceu e, quem sabe, se não tivesse ganhado aquele presente, jamais assumiria para sua vida a missão de proteger o direito de todo cidadão brasileiro de gerir a sua própria vida, sem ter um Estado opressor e falsamente paternalista tentando, a todo momento, dizer que somos incapazes de definir o que é melhor para nós, melhor para nossos filhos e melhor para nossos netos.
Acredito que o bom senso prevalecerá e não será usurpada das novas gerações a felicidade de se ter uma paixão, um esporte, um lazer sadio.
Bene Barbosa
Presidente do Movimento Viva Brasil
Índice · 2 páginas
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