Editorial
A “orquestra” do Planalto
É claro que música sempre foi um item de escolha estritamente pessoal. A musicalidade, contudo, é algo que nem todos possuem, daí possivelmente advindo o ditado “quem sabe, sabe; quem não sabe, bate palmas”...
O fato é que nós, cidadãos honestos, trabalhadores, pagadores de impostos e com domicílio plenamente conhecido, estamos todos no grande salão de baile da sociedade, e a música que frequentemente toca por aqui não agrada à maioria. A orquestra, como não poderia deixar de ser, é a de Brasília, geralmente falha em musicalidade e, com certeza, sem muito ritmo.
Somos, porém, obrigados a ouvir e, às vezes, até mesmo a dançar ao som daqueles músicos não tão afinados, enquanto que no salão dos Comandos e Falanges, ao lado, onde não se paga nem um “ingressinho” para entrar, todos os tipos de bandidos sempre escolhem a música que querem e dançam à vontade, sem se preocuparem com os acordes “organizados” tocados no salão principal, os quais em nada os atrapalham.
Nos últimos tempos, a música vigente no grande salão da sociedade, onde somos admitidos somente mediante o pagamento de caros “ingressos”, é a do desarmamento dos que lá estão e, nos intervalos para descanso dos músicos, tocam-se repetitivas marchinhas de CPIs. A maioria não sente vontade de dançar, ficando tristemente pelos cantos a desejar que pudesse fazer alguma coisa para que o regente mudasse um pouquinho o ritmo, mas regra é regra, e não se sabe, exatamente, quem é o tal regente...
Contudo, o Jornal do Senado de 23 de maio de 2001, o qual gentilmente recebemos por aqui, diariamente, dá nome a alguns dos músicos da orquestra, todos eles senadores da República. O menos afinado com os acordes da realidade é, como sempre foi, Renan Calheiros (PMDB-AL), relator do parecer no qual se proíbe radicalmente armas de fogo no Brasil, desde a fabricação até a posse, como forma de combater a violência e diminuir o número de mortes imotivadas geradas pelo fato de alguém estar portando uma arma. Em outras palavras, o senador citado toca pela pauta da surrealidade e esquece completamente exemplos como Suíça e Israel, onde qualquer cidadão possui ao menos uma arma e, nem por isso, apresentam índices de criminalidade elevados como os nossos. Pelo jeito, ele esqueceu também de paus, pedras, canetas, serras e outros objetos que, ao fim e ao cabo, de acordo com estatísticas não oficiais, porém verdadeiras, matam muito mais do que as chamadas armas de fogo.
Outro músico, isto é, senador de destaque, é Geraldo Melo (PSDB-RN), o qual perguntou a Calheiros por que não desarmou os bandidos quando foi ministro da Justiça e dispunha de meios para tal, ficando obviamente sem resposta, já que Calheiros, ao redigir seu parecer, nunca o dirigiu especificamente aos bandidos, e sim aos cidadãos comuns, dos quais, obviamente, fica muito mais fácil retirar armas de fogo, já que têm bons antecedentes, domicílio conhecido e suas armas devidamente registradas. Geraldo Melo lembrou ainda que o Estado não está apto a garantir tranquilidade e, por isso, não pode proibir um direito dos cidadãos.
Mais um músico ouvido, o senador Roberto Requião (PMDB-PR), foi bem incisivo ao citar a experiência dos EUA com a proibição de bebidas alcoólicas, a chamada Lei Seca, que acabou gerando a máfia norte-americana. Assim, para ele, é uma tolice absoluta proibir armas no Brasil, afirmando ainda que possui arma em casa e que não abre mão do direito de garantir segurança para sua família.
A senadora Emília Fernandes (PT-RS), afinadíssima que é, lembrou a falta de apoio e as péssimas condições de trabalho das polícias brasileiras, ressaltando que a proibição total de armas não passa de uma panaceia para encobrir a incapacidade oficial de oferecer segurança pública, sendo secundada por outro músico de valor, o senador Geraldo Cândido (PT-RJ), o qual cobrou resultados do utópico Plano Nacional de Segurança, lançado com estardalhaço pelo governo federal após a morte da professora Geisa durante o sequestro do ônibus 174 no Rio de Janeiro.
A pauta do substitutivo do senador Pedro Piva (PSDB-SP) parece, a essa altura, ser a escolhida para o baile da sociedade. Se não se configura como ideal, pelo menos não é tão restritiva quanto o projeto inicial do desafinado com a realidade Renan Calheiros.
Contudo, não devemos nos enganar sob a batuta conformista do “antes isso”, lembrando que as liberdades individuais do povo alemão, durante a vigência do III Reich, foram sendo removidas uma a uma, paulatinamente, graças à bem orquestrada propaganda do então ministro Goebbels e, principalmente, pelo imenso poder de magnetização de massas de que era dotado Adolf Hitler, poder esse que faltou a praticamente todos os dirigentes máximos desta nossa tão sofrida nação.
Enquanto isso, no salão ao lado, o dos Comandos e Falanges, todos bailam indiferentes a quaisquer medidas governamentais, musicais ou não, pois por lá a pauta que se executa é a da canção “Até quando (você vai levar porrada?)”.
Já não é hora de mandar para lá os “seguranças” e esquecer um pouco o bem-comportado público do baile da sociedade, onde os problemas que ocorrem são principalmente devidos a “penetras” vindos do outro salão?
Índice
Acesse esta edição
Assine e acesse esta e outras 206 edições. Ou compre apenas esta edição por 30 dias.








