Editorial
As Pérolas da Inocência...
Na sociedade humana, existem verdadeiros e falsos inocentes. Aos últimos, vamos acrescentar as aspas.
Recentemente, os "inocentes" da Grande Imprensa e do poder público de nosso país novamente voltaram sua atenção para o segmento das Armas de Fogo, certamente dada a escalada da violência nas cidades brasileiras.
Atentos aos noticiários diários da Grande Imprensa, selecionamos para nossos leitores algumas "pérolas da inocência" ocorridas com relação a armas e que mostram o deplorável patamar de seriedade informativa que campeja por nosso país.
Comecemos pelo apresentador Boris Casoy, do Telejornal Brasil, do SBT, que, em sua edição do dia 24/11/89 ao finalizar reportagem sobre apreensão de armas de traficantes de drogas no Rio de Janeiro "inocentemente declarou algo do tipo: "...há de chegar o dia em que não teremos mais fábricas de armas."
Que tipo de idiotas o senhor pensa que são seus telespectadores, Sr. Casoy? Sim, porque com a imposição dessa utópica frase o senhor já os entende também como totalmente apalermados, restando, agora, apenas definir o tipo. Seria, porventura, o mesmo tipo que assiste aos filmes de ação desse canal de TV, onde muitas Armas de Fogo aparecem, filmes esses sempre com as cotas de patrocínio totalmente preenchidas, as quais certamente conseguem gerar o lucro que paga seu salário?
Em sendo pessoa reputadamente inteligente, é permissível este jornalistaapresentador ter toda esta "inocência" em tal comentário? Certamente que não. Com esta colocação, a soldo do que (ou de quem) ele estaria? Chega de interrogações para quem insiste em mostrar que ainda não entendeu coisas tão simples e elementares como o direito pessoal à segurança ou a determinados tipos de esportes que exigem o concurso de Armas de Fogo.
A Rede Globo, no programa Fantástico de 26/11/89, após grande alarde prévio de uma matéria sobre balas perdidas, ao invés de entrevistar técnicos em Balística, preferiu o sensacionalismo e o dramalhão de ficar importunando ainda mais as vítimas e seus familiares. Realmente fantástico mostrar esse lado da coisa. Quer dizer, ficou tudo na mesma, a não ser o fato de que descobriu-se um sociólogo antidemocrata, de alguma faculdade do Rio de Janeiro, que claramente acha que uma grande parte da culpa é da propaganda de Armas de Fogo, sugerindo sua proibição.
Que tal proibir também a propaganda de bebidas alcoólicas, de automóveis, cigarros, etc., de vez que estes itens conseguem comprovadamente matar muito mais do que as estatísticas da Rede Globo com relação a balas perdidas?
Particularmente, gostaríamos de sugerir também a proibição da autopromoção (que é uma forma de propaganda) de idiotas.
Prosseguindo, vamos agora para políticos extremistas que, eventualmente, pregam, ou insinuam, a luta armada como solução para a conquista de seus ideais partidários, estas "inocentes" figuras que sempre encontram pela frente ainda mais "inocentes" jornalistas que nunca perguntam: "Mas, se o(s) senhor(es) está(ão) pregando a luta armada, que base técnica tem para isto? Já teve algum curso de guerrilha, já manuseou um fuzil de assalto, ou uma submetralhadora? Já viu o que faz uma granada quando atinge uma pessoa? E um morteiro, ou um lança-chamas? Já viu a devastação de um projétil 7,62 mm num tórax humano?"
Ora, vão os dois tipos plantar batatas. E, façam o favor, não as contaminem com burrice.
O excandidato a presidente, Enéas, que tão caracteristicamente marcou sua rapidíssima presença no horário eleitoral gratuito da TV, declarou em entrevistas posteriores duas irrefutáveis verdades: 1) alguns jornalistas distorcem informações a seu respeito, tanto que declarou-se profundamente magoado com isto, e 2) que, na sociedade moderna, não devemos achar nada, mas sim saber ou não o que estamos falando. Desnecessário frisar que estes comentários aplicam-se como uma luva ao já exposto.
Vamos agora às "inocentes" autoridades policiais que a cada apreensão de armas modernas nos morros do Rio de Janeiro reafirmam que os marginais estão sempre melhor armados, ou aqueles que insistem em não ter grupos de elite, como as demais polícias de outros países, aqueles chamados de "cleaning house teams", ou seja, equipes que "limpam a casa" desta praga maior, o delinquente.
Esta arenga toda só tem uma solução: dotem seus comandados de melhores armas, promovam cursos de aperfeiçoamento, não dêem chance aos bandidos, pois eles nunca darão a vocês. Os senhores estão esperando o quê? Que a coisa fique ainda mais nitidamente desequilibrada?
Não, calibres mais poderosos e armas mais modernas não vão acabar totalmente com a violência nas áreas urbanas, mas o impacto psicológico de seu poder vai fazer muito bandido pensar duas, ou mais, vezes antes de enfrentar um policial bem armado e bem treinado.
Para aqueles que recorrem à frase muito em moda de que violência gera violência, lembramos que um cidadão de bem jamais poderá ser entendido como violento para com um marginal: o último está delinquindo, transgredindo as normas da sociedade e, assim, perdendo os mais elementares direitos de ainda a ela pertencer, o primeiro tenta defender sua vida e a dos seus. Defender a vida, a ordem e as instituições é ser violento?
Na América do Norte, a cada dia mais e mais departamentos de polícia estão adotando calibres poderosos, armas modernas e treinamento intensivo para seus homens. "Inocentemente" perguntando: os senhores acreditam que realmente ainda não é hora disto ocorrer no Brasil?
Todos estes exercícios de "inocência" representam o quê? Em nosso entender, significam a bestial posição que tomou conta da elite dirigente e informativa do País nos últimos anos: o falar sem propriedade, sem medir previamente as consequências, o não fazer porque é mais cômodo e a maldita ideia de que subalternos são sempre idiotas, descartáveis.
Os jornalistas, as autoridades policiais e os políticos serão os únicos responsáveis por isso? Não. Eles apenas não devem disseminar opiniões incompetentes e nem insistirem em tardar a tomar decisões necessárias.
Uma boa ideia para amanhã: perder a "inocência", principalmente com relação a Armas de Fogo, para que inocentes não percam a vida.
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